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Médico Veterinário (UFRRJ-1964). MS em Microbiologia (UFRRJ, 1971) e PhD em Sanidade Animal (UFRRJ, 1997). Produziu cerca de 150 trabalhos científicos: os primeiros relatos sobre Cryptococose felina; primeiros isolamentos do Pithyum insidiosum de equinos; Nefropatia micotóxica suína, Aflatoxicose em suínos; anticorpos monoclonais anti aflatoxina e citrinina e estudos experimentais sobre citrinina em suínos. Prêmio de Pesquisa Avícola “Prof. José Maria Lamas da Silva” “Comenda do Mérito Veterinário” Instituto de Veterinária da UFRRJ; Honra ao Mérito Veterinário CRMV-RJ e Professor Emérito da UFRRJ. Presidente da Sociedade Latinoamericana de Micotoxicologia, Presidiu o I Congresso Latinoamericano de Micotoxicologia, RJ. Implantou o Centro de Micologia e Micotoxicologia e o Curso de Mestrado em Microbiologia Veterinária da UFRRJ. Autor dos livros: “Micotoxicologia: perspectiva Latino-americana” e “Micologia Veterinária” Na UFRRJ foi Professor Titular de Micologia e Micotoxicologia. Atualmente é Professor Titular da Universidade Estácio de Sá, responsável pela disciplina de Micologia Veterinária.

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domingo, 11 de março de 2012


MICOTOXINAS-2
Efeitos das micotoxinas sobre ruminantes

Luiz Celso Hygino da Cruz


Introduçāo

Um país dotado de dimensōes continentais e elevada extensão de terras férteis e baratas, é claro que só poderia ter se tornado um país com uma pecuária predominantemente extensiva, com a maior parte de seu plantel bovino mantido em grandes pastagens. Com o crescimento exponencial da populaçāo humana mundial e a demanda crescente por alimentos haverá, em pouco tempo, mudanças radicais nos critérios de ocupaçāo das terras férteis para atender às exigências por mais alimentos numa contínua pressão sobre o setor pecuário. Será vital que os produtores busquem procedimentos alternativos para manter a produção em níveis elevados com  a ocupação de menor extensão de terras e em melhores condições para produzir mais, melhor e mais barato. Continuar criando animais em extensas pastagens vai ser cada vez mais difícil porque, gradativamente,  as terras irão se tornar mais disputadas e muito mais caras. Num futuro próximo será necessário criar um maior número de animais em espaços cada vez menores. Sem qualquer sombra de dúvida, será um grande desafio para geneticistas, fisiologistas, nutricionistas e outros especialistas envolvidos na criaçāo de animais de produçāo. A maioria dos profissionais atualmente envolvidos deve concordar em pelo menos um aspecto, em relativamente pouco tempo, não será mais possível manter as nossas grandes criações extensivas de bovinos. Será indispensável introduzir em grande escala os sistemas de confinamento com  alimentaçāo baseada em concentrados à base de grāos ou encontrar outra alternativa que seja mais criativa e eficiente. 
Apropriadamente, o estômago dos ruminantes é denominado de fermentador anaeróbio porque em seu interior, uma população microbiana mista processa os alimentos (capim) ingeridos pelo animal e os transforma em uma mistura de pequenas moléculas que podem ser absorvidas e utilizadas em seus processos metabólicos.
Como já se sabe, ao se promover mudanças na composição da base alimentar dos ruminantes, poderá ocorrer uma mudança importante na fisiologia do rúmen. Esse órgāo foi concebido pela natureza para processar vegetais ricos em celulose utilizando uma diversificada populaçāo microbiana (bactérias e protozoários). Através de um complexo sistema metabólico microbiano, a celulose e outros componentes presentes nas plantas sāo biotransformados em nutrientes que são aproveitados pelo organismo animal para sintetizar os componentes químicos essenciais ao seu organismo. As bactérias são mais numerosas e participam de cerca de 80% dos processos de biotransformação que acontecem no estômago, os restantes 20% são realizados pelos protozoários.
Se parte fundamental da microbiota residente no estômago dos ruminantes é celulolítica, o que poderia acontecer se o animal deixasse de comer capim que é rico em celulose e passasse a ser alimentado com cereais que são ricos em carboidratos? A população microbiana residente no rúmen e retículo irá se manter inalterada ou será substituída por outra, parcial ou totalmente? Como ela irá se comportar? E se o se o animal for alimentado ao mesmo tempo com capim e raçāo o que poderá acontecer ao animal, se a raçāo contiver uma micotoxina? 
Se a fisiologia da nutriçāo dos ruminantes é fundamentada na fisiologia dos microorganismos que vivem em seu rúmen e retículo,  uma interferência na vida desses seres microscópicos poderá trazer consequências imprevisíveis sobre o desempenho produtivo do animal. 
Os micoorganismos produzem ácidos graxos voláteis de cadeia curta (ác. acético: 60 a 70% + ác.propiônico: 15 a 20% e ác. butírico: 10 a 15%), além de dióxido de carbono, amônia e metano.  Algumas bactérias no rúmen podem sintetizar componentes celulares nitrogenados a partir da amônia presente no fluido ruminal. Já os protozoários, são conhecidos por sua capacidade de englobarem bactérias, promoverem a sua destruição por lise para aproveitarem os seus componentes químicos como nutrientes, além de também utilizarem os componentes da dieta do animal para a obtenção de moléculas indispensáveis à biossíntese de seus próprios componentes orgânicos.  Portanto, os protozoários, tanto podem se nutrir dos componentes da dieta fornecida ao animal, como também são capaz de utilizarem das bactérias que se desenvolvem no fluido ruminal como fonte de nutrientes. 
Os protozoários do gênero Entodiniomorphos degradam alimentos fibrosos enquanto os do gênero Holotrichas degradam carboidratos. Os microorganismos que participam dos processos fermentativos no rúmen têm vida curta, mas a população microbiana viável se mantém quantitativamente estável, significando dizer que novas células vão surgindo enquanto um número equivalente morre. As que morrem, sofrem lise por ação da lisozima presente no abomaso com liberação de seus componentes químicos. Aqueles  microorganismos que permanecem viáveis e acompanham o bolo alimentar que passa para o intestino, também morrem e liberam seus componentes celulares. Proteínas, lipídios, polissacarídios e vitaminas que são liberados das células microbianas lisadas serão, em seguida, metabolizados e aproveitados como nutrientes.  


Micotoxinas e rúmen - Com exceção das aves e, em menor extensão dos suínos, nos quais os efeitos patogênicos das micotoxinas são estudados em experimentos realizados diretamente com eles, para os outros animais é mais comum fazer a extrapolação de resultados obtidos com animais de laboratório. É sabido que os efeitos das micotoxinas sobre os animais pode variar de acordo com a espécie, idade, sexo, estado fisiológico, forma de exposição, condições de criação, etc. Se, normalmente, a extrapolação de resultados deve ser feita com muito cuidado, quando se trata de ruminantes essa prática precisa considerar que a fisiologia de sua nutrição é bem diferente da de todos os outros animais. Possuindo um estômago compartimentalizado onde predomina o rúmen que é um grande fermentador anaeróbico, o aproveitamento dos alimentos vegetais é dependente da ação dos microorganismos ali residentes. Estes, ao degradarem os alimentos ingeridos, liberam ácidos graxos voláteis que são a principal fonte energética dos ruminantes. A introdução  de qualquer fator que possa interferir na viabilidade desses microorganismos poderá refletir negativamente sobre o desempenho animal e, como se sabe, algumas micotoxinas são microbicidas ou microbiostáticas, ou seja, elas atuam como antibióticos impedindo o crescimento ou matando bactérias. Isto quer dizer que, além de produzirem os efeitos tóxicos sobre órgãos ou tecidos, observados em outras espécies animais, ainda há de se considerar os efeitos resultantes dos distúrbios provenientes da ação antimicrobiana e seus reflexos no desenvolvimento animal.
Ao se analisar as interrelações entre micotoxinas e os microorganismos do rúmen, de imediato, deve-se considerar dois aspectos principais:
1. A capacidade de bactérias agirem sobre algumas micotoxinas, biotransformando-as em metabólitos desprovidos de toxicidade. Considera-se que os protozoários do rúmen  têm capacidade mais acentuada de metabolizarem moléculas de micotoxinas do que as bactérias. Mas, por outro lado, os protozoários são mais sensíveis ao poder antimicrobiano que algumas micotoxinas possuem.  
2. Que certos microorganismos residentes no rúmen são sensíveis a algumas  das micotoxinas.

1. Degradação de micotoxinas no rúmen.
É amplamente reconhecido pelos profissionais da área de saúde animal que os ruminantes têm menor susceptibilidade à ação das micotoxinas do que os  animais monogástricos como as aves e os suínos, por exemplo. Acredita-se que os ruminantes sejam menos susceptíveis aos efeitos danosos de algumas micotoxinas porque certos microorganismos residentes no rúmen teriam a capacidade de metabolizar e inativar micotoxinas. Ocorre, porém, que alguns dos metabólitos surgidos durante a  metabolização de uma determinada micotoxina podem ter sua toxicidade igual ou superior ao da própria micotoxina  que foi biotransformada. Há, também, aquelas micotoxinas que podem passar pelos compartimentos estomacais sem sofrerem qualquer alteração metabólica por parte dos microorganismos que fazem parte da microbiota residente. 


OCRATOXINA (OTA)  
No rúmen, a Ocratoxina A tem a sua atividade tóxica quase totalmente reduzida ao ser hidrolisada, pela ação dos protozoários presentes no rúmen, em alfa-ocratoxina e fenilanina. Este processo é capaz de inativar uma concentração tão alta quanto 12 mg/Kg de alimentos. Entretanto, a capacidade inativadora, que é dependente dos protozoários, pode ser reduzida quando se promove alterações na dieta com a utilização de concentrados ricos em proteínas em substituição ao feno. Com uma dieta composta só de feno, o pH do fluido ruminal será neutro e irá se tornar gradativamente mais ácido à medida em que o feno for substituido por concentrado. Quanto mais ácido for o fluido ruminal, maior será o tempo necessário para a inativação da OTA. 

TRICOTECENOS 
Através da hidrólise ou da redução enzimática, os tricotecenos T-2 toxina, HT-2 toxina, deoxinivalenol (DON) e diacetoxiscirpenol (DAS) podem ser degradados de forma variável no rúmen. 
DON é quase totalmente biotransformado pela microbiota ruminal em epoxi-deoxinivalenol (DOM-1) que é uma forma quase atóxica para os ruminantes. 
TOXINA T-2 e DAS - A toxina T-2 é utilizada como fonte de energia por bactérias do rúmen (Anaerovibrio lipolytica, Butyrivibrio fibrisolvens e Selenomonas ruminantium) e, por isso, elas são inativadas. Os protozoários do rúmen que são os maiores degradadores das toxinas T-2 e DAS, podem reduzir em cerca de 90%  os níveis destas micotoxinas no fluido ruminal. 
DAS, através de reações de deacetilação, é transformada em MAS (monoacetoxiscirpenol) e cispenetriol e depois em de-epoxi MAS e de-epoxiscirpenetriol.
T-2 é convertida a HT-2 e  NEO (neosolaniol), que possuem cerca de um décimo da atividade tóxica da micotoxina original. 
Em todas as situações em que houver uma ação biotransformadora de um dos tricotecenos, o processo necessitará atingir a forma de de-epoxi para que a desativação da micotoxina seja completada. Se resíduos de qualquer um dos intermediários no processo persistir, ele poderá ser tão ou mais tóxico que a micotoxina original. 


AFLATOXINAS 
Ao contrário de outras micotoxinas, as aflatoxinas passam pelo rúmen praticamente sem sofrerem qualquer alteração provocada pelos microorganismos residentes. Só uma pequena parcela, inferior a 10% do total de aflatoxina ingerida junto à dieta, pode ser biotransformada em aflatoxicol.  Além de ser mínimo o percentual de biotransformação microbiana das aflatoxinas, o subproduto gerado, o aflatoxicol, ainda mantém o mesmo poder tóxico da molécula original de aflatoxina. Sendo assim, não há qualquer mecanismo de bioproteção por parte da microbiota ruminal em relação às aflatoxinas. Grande parte das  aflatoxinas ingeridas passará junto com o bolo alimentar para o intestino, onde serão absorvidas por difusão passiva. 

ZEARALENONA

  1. Microorganismos do rúmen, especialmente, os protozoários, promovem a conversão de cerca de 90% do total de Zearalenona em alfa-zearalenol e em uma pequena proporção de beta-zearalenol. Apesar do zearalenol ser considerado ter um poder estrogênico maior que o da zearalenona, seu efeito tóxico, entretanto, é menor porque, além de ser menos absorvido, ele será, em grande parte, convertido a  beta-zearalenol no fígado. O beta-zearalenol apresenta atividade tóxica sobre as células endometriais, mas sua afinidade para os resceptores estrogênicos é muito pequena.
  2. No rúmen, tanto a zearalenona quanto o alfa-zearalenol, podem ser convertido por hidrogenação a um composto denominado de zeranol, um hormônio estrogênico, utilizado pelos criadores de gado de corte como estimulantes do crescimento.


                                                                         FUMONISINAS
As poucas informações disponíveis na literatura indicam que a Fumonisina B1 passa pelo rúmen praticamente sem sofrer qualquer alteração provocada pela microbiota residente.

segunda-feira, 5 de março de 2012


MICOTOXINAS-1


Fontes de proteínas destinadas à alimentação do homem e dos animais devem estar livres de contaminantes químicos naturais ou sintéticos capazes de provocarem efeitos adversos à saúde. Algumas destas substâncias chegam aos alimentos através do próprio homem que as utilizam no combate ás diversas pragas, comuns nas lavouras. Outro importante grupo de contaminantes são os toxicantes não intencionais, assim denominados porque são produzidos naturalmente por micoorganismos, plantas e animais. Neste grupo enquadram-se um conjunto de metabólitos secundários tóxicos produzidos por fungos, as micotoxinas. Estas substâncias estão sendo consideradas pela Organização Mundial de Saúde como poluentes ambientais de importância mundial. Elas compreendem um conjunto complexo de moléculas tóxicas, produzidas por fungos, diferenciando-se das toxinas bacterianas por não serem de natureza protéica e nem imunogênicas. Embora aproximadamente quinhentas sejam atualmente conhecidas, somente algumas delas têm sido amplamente estudadas.
Em populações humanas onde predominam a fome e a pobreza, o consumo de alimentos contaminados com micotoxinas é muitas vezes, ignorado. Atualmente, estima-se que um em cada cinco habitantes da terra (aproximadamente um bilhão de pessoas) viva em condições de extrema pobreza. A cada oito segundos morre uma criança por doenças associadas à miséria (principalmente parasitoses) e à subnutrição (uma em cada três crianças do mundo). Nos países em desenvolvimento, a pobreza é a principal responsável pela falta de condições mínimas de higiene (água potável, medicamentos e instalações sanitárias).  Estes fatores, sem dúvida, contribuem para o aumento da mortalidade e tornam o estudo das micotoxicoses um tema complexo e desafiador. 
A presença de micotoxinas em grãos, além de refletir negativamente sobre a exportação, causa importantes prejuízos à pecuária, especialmente à suinocultura e avicultura. Enormes perdas econômicas são decorrentes da utilização de alimentos contaminados por estas substâncias tóxicas. Quando não provocam a morte dos animais em processos de intoxicação aguda, as micotoxinas determinam redução de peso, diminuição da postura e da conversão alimentar, aumento da suscetibilidade às doenças infecciosas e parasitárias, além de causarem problemas reprodutivos. 
Estes problemas são mais acentuados nos países de clima tropical úmido, os quais reúnem as condições ambientais adequadas ao desenvolvimento dos fungos. A ocorrência de micotoxicoses entre os animais domésticos pode ser  um reflexo do sistema produtivo adotado pelos criadores.  Quanto mais ele torna evoluído, maior é a utilização de alimentação concentrada à base de grãos, tornando maior a probabilidade de intoxicação pelas micotoxinas. De maneira geral, os cereais produzidos em regiões quentes e úmidas, com predominância de técnicas agrícolas deficientes e armazenamento inadequado e insuficiente, são mais sujeitos à proliferação de fungos e a consequente produção de micotoxinas.
Numerosas espécies fúngicas são hoje, reconhecidas como produtoras de uma ou mais micotoxinas e um grande número destes metabólitos tóxicos já foram identificados e caracterizados como substâncias produzidas em contaminações naturais de grãos e outros alimentos. 
Caracterizar a micobiota toxígena presente na superfície dos grãos pode ter seu valor epidemiológico e ser importante para a adoção de medidas preventivas, entretanto, conclusões definitivas sobre a etiologia da intoxicação somente podem ser deduzidas após a extração e identificação da micotoxina envolvida porque é necessário considerar que:
1. a simples presença de um fungo toxígeno não assegura que uma micotoxina esteja presente;
2. a ausência de fungos toxígenos não garante um produto isento de contaminação por micotoxinas, porque a micotoxina pode persistir mesmo que o fungo já tenha sido eliminado;
3. muitas vezes os fungos produzem mais de uma micotoxina;
4. uma determinada micotoxina pode ser produzida por mais de um gênero de fungos.

As micotoxinas entram na dieta dos animais através da utilização de rações elaboradas com grãos já contaminados por toxinas ou de rações estocadas sob condições inadequadas. De maneira geral, os grãos possuem elementos fúngicos (conídios) em sua superfície, os quais permanecerão em estado de latência se as condições ambientais (temperatura, umidade relativa e atividade de água) permanecerem impróprias ao seu desenvolvimento. 
Sob condições favoráveis de temperatura e umidade, os conídios dos fungos germinam, formam hifas e, ao desenvolverem seu micélio sobre a superfície dos grãos,
 a) reduzem o seu valor nutritivo porque utilizam parte dos nutrientes para o seu próprio crescimento; 
b) aumenta os riscos de ocorrência de infecções pulmonares causadas por espécies patogênicas, como é o caso do Aspergillus fumigatus; 
c) se o fungo for toxígeno, diversas micotoxinas podem surgir como contaminantes, provocando graves problemas de intoxicação aguda ou crônica. 
Diversos gêneros de fungos contaminantes comuns de nossos produtos agrícolas são produtores de micotoxinas importantes em patologia animal. Dentre eles destacam-se os gêneros Aspergillus, Penicillium, Fusarium, Alternaria, Claviceps, Stachibotrys, Phoma, Mirothecium e Pithomyces, com várias espécies toxígenas capazes de crescerem em diversos substratos e sob condições as mais variadas (pH, umidade, temperatura, aeração, etc.). Os fungos podem contaminar os alimentos em qualquer momento da produção, transporte, estocagem ou industrialização, havendo necessidade de uma interação entre o fungo, o substrato e as condições ambientais.  Desta maneira, as micotoxinas podem ser produzidas quando o produto ainda se encontra no campo, antes mesmo de sua colheita e, até mesmo antes de sua formação, quando o fungo pode penetrar através da flor. Conceitos até então considerados clássicos foram revistos à luz de novas observações. Por exemplo, as aflatoxinas consideradas um produto do metabolismo secundário de Aspergillus elaborado somente em produtos agrícolas estocados, pode ser também produzido antes da colheita dos grãos, porque o fungo pode atingi-los, penetrando através da flor. Inegavelmente, entretanto, a contaminação ocorre com mais frequência no período pós-colheita,
1) quando a secagem dos grãos é retardada ou não é feita adequadamente;
2) durante o seu transporte sob condições inadequadas, em caminhões ou trens que, ao permanecerem expostos ao sol têm a carga aquecida, provocando a formação de correntes de convexão e o consequente deslocamento de vapores  d'água das áreas mais quentes da carga para as regiões mais frias. Nestes locais, ocorre a condensação dos vapores de água com aumento da umidade local, criando as condições para o desenvolvimento de fungos e a produção de micotoxinas. A solução para este problema é a adoção de um sistema de aeração adaptável à carroceria do caminhão ou trem;
3) durante a armazenagem do produto agrícola que necessita ser feito com sistemas eficientes de aeração, controle de temperatura e da contaminação por insetos;
4) no processamento industrial, quando o produto pode ser contaminado por sobras contaminadas de outros produtos anteriormente processados;
5) durante a estocagem na fazenda do produto industrializado (rações, por exemplo).

sábado, 25 de fevereiro de 2012


MICOLOGIA. 2 


 DERMATOFITOSES
Fungos patogênicos isolados de raspados de pele de cães com lesões cutâneas e considerações sobre coleta, acondicionamento e envio de material para exames laboratoriais..
Luiz Celso Hygino da Cruz*
José Luis de Carvalho*
Diana Cunha da Cruz de Carvalho*
Alexandre Cunha Espindola*
________________________________
* LABOVET


INTRODUÇÃO - Das doenças fúngicas diagnosticadas em animais domésticos, as dermatofitoses são as mais frequentes, mas apesar de serem comuns, o seu diagnóstico não é muito fácil e por causa disso, erros são cometidos com muita frequência. Apesar das lesões apresentarem um certo padrão que as descrevem como sendo circulares e com desenvolvimento centrífugo, elas apresentam diversos tipos evolutivos, variações estas, que são dependentes do grau de virulência da cepa, do estado imunológico do hospedeiro, do grau de adaptabilidade da espécie fúngica à espécie animal etc. O diagnóstico das dermatofitoses é totalmente dependente do apoio laboratorial e, por causa disto, é muito importante que o clínico faça a coleta de material de maneira correta e encaminhe ao laboratório de forma adequada. O sucesso do diagnóstico laboratorial depende da qualidade dos procedimentos adotados.

MATERIAIS E MÉTODOS
Material - Os animais, cães de diversas raças e idades, de ambos os sexos, domiciliados em diversos bairros da cidade do Rio de Janeiro, não foram examinados diretamente pelos autores. Foram animais atendidos em diversas clínicas localizadas nos mais diversos bairros da cidade, os clínicos assistentes consideraram estes animais como portadores de alterações patológicas que justificavam a solicitação de análises micológicas com vistas à caracterização do agente etiológico. Para isto, raspados de lesões foram coletados de 1185 animais, no período de 26/07/2002 a 30/11/2005 e enviados ao nosso laboratório de análises clínicas (Labovet). Na maioria das vezes, o material era acondicionado em papel (receituário, envelope, toalha ou higiênico) mas em diversos casos, o seu encaminhamento foi feito de outras formas como por exemplo, entre duas lâminas envolvidas por esparadrapo ou mesmo por fita adesiva crepe, em tubo de ensaio fechado com rolha de borracha ou em frascos para urina ou fezes. Estes materiais apresentavam os mais diversos aspectos: na maioria das vezes era constituído de somente pelos (curtos ou muito longos, muito poucos ou em grandes quantidades), pelos com células descamativas, pelos com crostas, somente crostas ou crostas com sangue. A forma de coleta também variava bastante: muitas vezes foram feitos raspados superficiais com uma lâmina, outras vezes, os pelos eram arrancados juntamente com as crostas e, em poucos casos, foram utilizados, até mesmo, cotonetes. 
Em todos os casos em que havia suspeita de esporotricose, o material foi coletado por meio de swabs estéreis passados na superfície das lesões e enviados em meio de transporte.

Isolamento e identificação 
Preparo do material - Em duas situações havia necessidade de fazer uma preparação especial do material antes de se fazer o cultivo em meio seletivo: quando o material era constituído de crostas ou quando os pelos eram muito longos. As crostas eram trituradas em gral ou mesmo sobre o papel em que era acondicionado e os pelos longos eram cortados com tesoura, utilizando-se para a semeadura a parte que continha o seu bulbo.
Cultivo: Todos os cultivos foram feitos em agar Mycosel que possui em sua formulação, cloranfenicol e cicloheximida como agentes seletivos. O material constituído de pelos, células descamativas ou crostas trituradas, era colocado, com o auxílio de uma pinça, na superfície do meio de cultura inclinado, em tubo de ensaio e depois, com uma alça de platina, este material era espalhado por toda a superfície do meio. A incubação era feita em temperatura ambiente por até 30 dias.
Microscopia – A caracterização microscópica de todas as culturas isoladas foi feita mediante preparações entre lâmina e lamínula, coradas pelo azul de algodão lático.

Identificação dos fungos isolados 
Microsporum e Trichophyton: a identificação destes dermatófitos foi baseada nas características de suas colônias (formato, consistência, pigmentação da superfície e do reverso etc) e nos aspectos microscópicos, principalmente em suas estruturas reprodutivas (macroconídeos e microconídeos). 
Malassezia: a principal exigência nutricional das espécies do gênero Malassezia está relacionada à dependência de ácidos graxos, M. pachydermatis que é lipofílica, mas não lipodependente, pode ser cultivada nos meios de uso comum em micologia, como o meio de Sabouraud, acrescido de antibióticos como o cloranfenicol, enquanto as outras espécies são incapazes de crescerem neste meio, se não houver suplementação de lipídeos. No meio de Sabouraud, M. pachydermatis apresenta colônias redondas, convexas, foscas, de cor creme-amarelada e textura friável; o crescimento ótimo se dá à temperatura de 37° C em 48 a 72 horas. Podem ainda ser observadas colônias com dois diferentes fenótipos no que diz respeito ao diâmetro (grandes ou pequenas), ambas contendo células com as mesmas características microscópicas.
Candida: para a identificação deste gênero, além das características macroscópicas e microscópicas de seu crescimento em meio de Sabouraud glicosado, foram analisados os seguintes aspectos: formação de colônia radiada em EMB agar com incubação em 10% de CO2, produção de clamidoconídeos em agar farinha de milho e formação de tubos germinativos em soro sanguíneo após incubação por 2 horas a 37o C.
Sporothrix schenckii: a identificação desta espécie foi baseada principalmente em seu dimorfismo. À temperatura corporal ou quando seus cultivos são incubados a 37o C, apresenta-se como um fungo leveduriforme de forma alongada, (muitas células têm o formato de uma gota), envolvido por um halo claro, leveduras também podem ser encontradas fagocitadas por macrófagos. Nos cultivos incubados a 25o C ocorre formação de colônias, inicialmente de cor clara que, gradativamente vão se tornando pigmentadas até se tornarem quase negras. À microscopia observam-se hifas finas, septadas e pequenos conídeos produzidos nas extremidades de diminutas fiálides ligadas à conidióforos ou diretamente às hifas.
Scopulariopsis: suas colônias são pulverulentas devido ao grande número de conídeos. As hifas são septadas e os conidióforos podem ser formados isoladamente ou em ramificações em cujas extremidades se formam cadeias de conídeos globosos e eqüinulados.
Geotrichum: suas colônias são achatadas, brancas com sua superfície apresentando uma textura como cera ou apresentando filamentos aéreos. Multiplica-se por fragmentação da hifa, formando artrosporos.
Rhodotorula: este é um fungo leveduriforme que se destaca  por formar colônias de consistência cremosa com pigmentação de cor laranja. Produz pequenas células que se multiplicam por brotamento, não forma hifas e nem pseudo-hifas.



RESULTADOS E DISCUSSÃO
Fungos patogênicos foram detectados em 31,65 % (375 amostras) de um total de 1185 raspados de pele enviados para análise em nosso laboratório de análises clínicas (Labovet), no período de 26/07/2002 a 30/11/2005 (Quadro 1). Deste total, 280 eram dermatófitos (Microsporum ou Trichophyton) ou 23,63% de todos os fungos patogênicos isolados, destacando-se o Microsporum canis (21,77%) como o mais freqüente, seguido do Microsporum gypseum (0,93%) e do Trichophyton mentagrophytes (0,84%). 

Quadro 1 – Fungos isolados a partir de 1185 raspados de pele
                        coletados de cães com suspeita de dermatofitoses.
Fungo isolado
No de isolados
%
Microsporum canis
258
21,77
Microsporum gypseum
11
0,93
Trichophyton mentagrophytes
10
0,84
Malassezia pachydermatis
68
5,74
M. canis + M. pachydermatis
1

Sporothrix schenckii
18
1,52
Candida albicans
5
0,42
Scopulariopsis sp
2

Rhodotorula sp
1

Geotrichum sp
1

Total de positivos 
375
31,65
Total de negativos
810
68,35

Estes resultados evidenciam a pouca diversidade de espécies de fungos dermatófitos pertencentes aos gêneros Microsporum e Trichophyton, parasitando os cães na cidade do Rio de Janeiro. De um total de 280 cepas de dermatófitos isoladas, foram identificadas apenas três espécies, M. canis e M. gypseum, o primeiro zoofílico e o segundo geofílico e T. mentagrophytes, com predominância do M. canis (259 cepas) sobre todas as outras espécies patogênicas isoladas da pele de cães. Deve-se também ressaltar o elevado número de isolados de M. pachydermatis (68 ou 5,74%), inferior apenas ao M. canis. Neste caso, é necessário considerar que, por ser um comensal na pele, sua presença em cultivos a partir de raspados de pele, deve ser analisada com muito critério. Em todos os casos em que assinalamos a sua presença, havia um grande número de colônias, indicando um provável envolvimento com o processo patológico em análise. Entretanto, se para os casos de otites micóticas foram criados parâmetros numéricos que definem a correlação deste fungo com o quadro patológico, no caso das dermatoses, isto ainda não foi estabelecido, o que transfere ao clínico a responsabilidade pelo diagnóstico.  
Como pode ser verificado no quadro 1, também registramos a  ocorrência de Candida albicans (5 cepas),  Scopulariopsis sp (2 cepas), Rhodotorula sp (1 cepa),  e Geotrichum sp (1 cepa). Eventualmente, estes microorganismos podem ser associados a processos patológicos localizados na pele. 
Como se sabe, Candida albicans é considerada como um microorganismo normal da microbiota das mucosas bucal e vaginal e, eventualmente também pode ser encontrada na pele sadia. Por outro lado, este fungo tem sido implicado como agente etiológico de dermatopatias  no homem e em animais domésticos.
Dermatopatias de ocorrência eventual, também têm sido associadas ao  Scopulariopsis sp. Como é um fungo também encontrado com certa freqüência no meio ambiente, a sua presença em cultivos de raspados de pele deve ser analisada com cuidado porque ele pode estar presente como um simples contaminante, adquirido através do contato com o meio ambiente..
Foram relacionados no quadro 1, somente os fungos que normalmente são considerados responsáveis por processos patológicos em animais domésticos, não tendo sido considerados os demais fungos que se desenvolveram nos tubos de cultivo, apesar do meio conter o antibiótico cicloheximida, mas que são considerados fungos saprófitas. O desenvolvimento destes fungos nestes meios, algumas vezes foi tão intenso que ele poderia ter impedido o desenvolvimento de um fungo patogênico se estivesse presente, resultando desta maneira, em laudos falsos negativos.
Os resultados mostrados acima indicam uma aparente alta incidência de infecções fúngicas tegumentares em cães na cidade do Rio de Janeiro. Entretanto, se considerarmos que a coleta de material para exame micológico, teria sido motivada por uma suspeita clínica de dermatomicoses, seria lícito concluir que teria havido um baixo  percentual de acertos nos diagnósticos clínicos realizados, e um alto  índice de erros, superior em mais de duas vezes (cerca de 68%) ao de acertos (cerca de 31%). 
Olhando por este ângulo, poder-se-ia considerar que poucos veterinários deteriam conhecimentos aprofundados sobre dermatologia e, por isso, muitos enviariam aos laboratórios, raspados de pele de qualquer caso, independentemente de suas características clínicas, na tentativa de esclarecer problemas dermatológicos, sem uma adequada fundamentação teórico-prática. Esta situação deve ser melhor avaliada e seus pontos críticos devidamente identificados para que medidas corretivas possam ser indicadas e, desta maneira, esta grande margem de erros possa ser diminuída. 
Parece claro que um processo de educação continuada deva ser a base desse processo. Palestras, cursos teóricos e práticos, programas de estágios supervisionados para estudantes, seminários e outras formas de treinamento precisam ser disponibilizados pelas entidades de ensino e as associações profissionais como a Anclivepa, por exemplo.
Um outro problema nos parece ser a forma de coleta e acondicionamento do material enviado para ser analisado nos laboratórios. Por mais avançada e sofisticada que seja a técnica de diagnóstico laboratorial, a qualidade de seus resultados será sempre dependente da qualidade e da forma como o material foi coletado, acondicionado e enviado. Em se tratando de material destinado ao diagnóstico de dermatofitoses, algumas observações precisam ser feitas para que sejam minimizados os problemas que podem contribuir para que o diagnóstico seja otimizado.
Limpeza prévia - Por existir uma grande quantidade de microorganismos na pele dos animais, deve-se fazer uma limpeza prévia com gaze embebida em álcool a 70. 
Local de coleta - O material a ser enviado ao laboratório deve ser obtido das bordas da lesão (área em expansão da lesão), local em que os fungos estão metabolicamente ativos. 
Raspados superficiais - Não é necessário fazer uma raspagem profunda porque o fungo encontra-se no extrato córneo e nos pelos. Além disso, a raspagem profunda deixará o material úmido propiciando, com isso, o desenvolvimento de bactérias e fungos saprófitas, tornando muito difícil o diagnóstico. 
Coleta de pelos - Utilizando-se de uma pinça, deve-se arrancar os pelos que se mostrarem fluorescentes à luz de Wood, ou que forem quebradiços, defeituosos ou se encontrarem junto a processos inflamatórios, além de também recolher material descamativo ou crostasArrancar os pelos é importante porque o dermatófito ao se expandir pela superfície da pele, encontrará em seu caminho o folículo piloso, então ele descerá por sua parede e invadirá o pelo a partir de sua base, ou seja, o bulbo que se encontra inserido no folículo. A partir dali, o fungo vai se desenvolver para cima, não chegando a atingir o seu ápice porque o pelo cairá antes. Por este motivo, sugerimos que os animais que têm pelos longos, antes de serem retirados com o auxílio de pinça, devem ter sua altura reduzida com tesoura, a aproximadamente 1 cm. Com este procedimento, poderemos colocar um maior número de pelos na superfície do meio de cultura, aumentando a probabilidade de obtenção de cultivos positivos. 
Acondicionamento - De preferência, o material obtido deve ser embrulhado em papel limpo. Este procedimento eliminará a umidade, evitando, desta maneira, o crescimento dos contaminantes durante o transporte. Nestas condições, o material poderá, inclusive, ser enviado pelo correio. Nunca acondicionar o material entre duas lâminas de vidro ou em tubo de ensaio, especialmente se for fechado com rolha de borracha; muitas vezes o raspado é colocado entre duas lâminas e depois envolvidas por esparadrapo ou uma fita adesiva. Este procedimento é inadequado porque, além de reter umidade facilitando o crescimento de microorganismos contaminantes, a retirada do envoltório para o processamento do material trará riscos de contaminação para o técnico. Por motivos semelhantes, não se deve enviar raspados de pele dentro de tubos de ensaio fechados com rolhas de borracha.
Como se sabe, as dermatofitoses são zoonoses frequentes tanto na área urbana como na rural e, por isso, aos profissionais da área, deve ser exigido um comportamento consciente e participativo, não somente na prevenção das dermatofitoses em si mesmo e em sua equipe, como também na prevenção da disseminação da infecção na  comunidade que, de alguma maneira, tem relações com o animal portador da dermatofitose. É fundamental que o clínico veterinário esclareça a seus clientes, que o seu animal, portador dermatofitose, seja isolado e tratado com o devido cuidado, para evitar a transmissão da infecção para os membros da família. A permanência do animal junto à família, e o seu contato com o ambiente da casa (móveis e objetos) que também são utilizados pelos membros da família, aumenta a possibilidade de contaminação das pessoas. Não pode ser esquecido também, que nestes casos ocorre intensa queda de pelos (pela ação da queratinase produzida pelo dermatófito), muitos deles, infectados pelo fungo e, assim, sua presença no meio ambiente, pode significar maior probabilidade de contágio das pessoas residentes e o isolamento do animal infectado é um procedimento que não pode ser esquecido pelo veterinário assistente.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012


Micologia. 1
PSEUDOMICETOMA DERMATOFÍTICO

Isolamento de Microsporum distortum e Microsporum canis de pseudomicetomas dermatofíticos em cão e gato. 

Luiz Celso Hygino da Cruz1
José Luis de Carvalho2
Diana Cunha da Cruz de Carvalho3
Alexandre Cunha Espindola3
___________________________
1. PhD; Prof. Titular aposentado UFRRJ; Prof. Adjunto Univ. Estácio de Sá; LABOVET 
2. MS; Prof. Auxiliar Univ. Estácio de Sá; LABOVET.
3. MS; LABOVET - Labovet – Rua Aricurí, 1196 – Campo Grande – Rio de Janeiro.    Hyginodacruz@gmail.com

Resumo
Microsporum distortum e Microsporum canis foram isolados, respectivamente, de um cão e de um gato que apresentavam lesões nodulares subcutâneas. Histologicamente, estes nódulos foram caracterizadas como pseudomicetoma dermatofítico por apresentarem lesões multifocais de desenvolvimento fúngico, caracterizando a formação de microcolônias constituídas unicamente por hifas septadas, de diâmetro irregular, cortadas no sentido longitudinal ou transversal e reativas positivamente ao PAS e pela associação etiológica com dermatófitos. Não foi encontrada nenhuma referência na literatura consultada sobre a associação desta patologia com o Microsporum distortum e discute-se também a validade desta espécie.
Abstract
Microsporum distortum and Microsporum canis were isotaded, respectivelly, from a dog and a cat, with subcutaneous nodules.  Histologically, this nodules were a typical pseudomycetoma dermatophytic by its multiphocal fungical lesions charactherized by microcolonies formations, constituted only by septated hiphal with irregular diameter, longitudinal and transversally segmented and were reatives  to PAS. No reference about M. distortum associated with a pseudomycetoma dermatophytic were observed and a discussion  about that specie is .

Introdução
Os dermatófitos constituem um grupo de fungos capazes de utilizarem a queratina como nutrientes e, por isto, são encontrados parasitando os tecidos queratinizados do homem e dos animais (extrato córneo da pele, pelo, e unhas). Algumas espécies vivem saprofiticamente no solo, nutrindo-se da queratina ali existente e, eventualmente, podem infectar os animais. A queratina é uma escleroproteína altamente polimerizada, constituída de cadeias polipeptídicas unidas por ligações S-S as quais mantêm a forma tridimensional da molécula. A maior resistência de certas estruturas queratinizadas, os anexos da pele  como os cascos, chifres e as carapaças de tartarugas, tem sido atribuída à presença de um maior número dessas ligações em suas moléculas de queratina, o que também pode explicar 
a maior resistência que elas demonstram ter à ação de fungos queratinolíticos, os dermatófitos. A alta resistência das queratinas à maioria dos microrganismos está correlacionada com a presença dessas ligações. Os dermatófitos, ao produzirem queratinases, que são capazes de romperem as ligações S-S, decompõem a queratina, resultando em compostos que possuem o grupamento -SH. Esta capacidade de produzir                                                                      
queratinases explica o fato dos dermatófitos infectarem somente os tecidos superficiais ricos em queratinas, não tendo poder invasor. Ao contato com a pele, o dermatófito fixa-se no extrato córneo e inicia o seu crescimento que evoluirá de maneira centrífuga. A partir do 
ponto de infecção inicial, o fungo crescerá em todos os sentidos, buscando novas fontes de queratina. Como ele não tem poder invasor, seu crescimento normalmente, fica limitado às áreas queratinizadas da pele. A reação inflamatória que se segue às infecções por dermatófitos podem ser explicadas por uma produção de metabólitos tóxicos pelo fungo. Estas substâncias produzem uma irritação na pele, sobrevindo, conseqüentemente, uma reação defensiva do organismo animal. Quando isto ocorre, o fungo se afasta da região inflamada, pois ele não é capaz de sobreviver em um ambiente com inflamação e infecção bacteriana secundária. Por causa disto, provavelmente como uma forma de garantir a sua sobrevivência, através de um longo processo evolutivo, alguns dermatófitos suprimiram sua capacidade de produzir substâncias irritantes para determinados hospedeiros garantindo, desta maneira, sua permanência junto a uma determinada espécie animal. Não sendo produzidas substâncias irritantes, não haverá reação inflamatória e, em conseqüência, o fungo permanecerá indefinidamente na pele desta espécie animal. Isto aconteceu com o Microsporum canis com relação ao cão e, quando esta espécie parasita outros animais ocorre, em geral, o desenvolvimento de uma reação inflamatória mais pronunciada. Esta adaptação pode estar relacionada com as diferenças entre a constituição química das diversas queratinas que, de acordo com a espécie animal, pode ter variação no conteúdo de cistina, ácido nicotínico, triptofano, arginina etc.
Nos felinos, a infecção localiza-se preferencialmente nas extremidades e na cabeça. Em geral é inaparente, sem reação inflamatória e apresentando somente uma suave  descamação com áreas depiladas  ou com pelos que se desprendem com facilidade. Nas formas com ligeira resposta inflamatória ocorre formação de crostas.
Nos caninos, as lesões, em geral, são mais marcantes, mas variam de acordo com o estado imunológico do animal ou de acordo com o gráu de patogenicidade da cepa fúngica. As lesões podem ser discretas, apresentando apenas queda de pelos e descamação ou podem ser acompanhadas de uma resposta inflamatória um pouco mais intensa, tendo os bordos ligeiramente mais elevados e hiperemiados. Em casos extremos, quando o animal encontra-se imunossuprimido, a reação inflamatória pode ser grave podendo, inclusive, ocorrer complicações por infecções bacterianas secundárias.
Pseudomicetoma dermatofítico - Raramente, os dermatófitos produzem lesões em tecidos profundos não queratinizados, que são denominadas de pseudomicetomas dermatofíticos. A presença de um dermatófito em tecidos subcutâneos provoca uma reação purulenta aguda com formação de abcessos ou produzindo uma reação granulomatosa, usualmente do tipo nodular. São poucas as referências na literatura especializada sobre a ocorrência desta patologia (Abramo, Vercelli & Macianti, 2001; Bergman et al., 2002; Black et al., 2001; Bond, Pocknell, Tozet, 2001; Chen et al., 1993; Miller Jr. & Goldschmidt, 1986; Moraes et al., 2001; Tuttle & Chandler, 1983; Yager et al., 1986; Zimmerman et al., 2003; Giufrida & Tostes, 2003). 


Material e Métodos
Fragmentos de lesões nodulares retiradas cirurgicamente da região subcutânea de um cão e de um gato, foram encaminhados ao Laboratório de Microbiologia do LABOVET, por duas clínicas veterinárias localizadas na cidade do Rio de Janeiro para diagnóstico micológico. Cada um destes dois materiais foi dividido em duas partes: uma delas foi colocada em formol a 10% para fixação e posterior histopatologia, utilizando a coloração de PAS e a outra parte foi imediatamente processada, com sua fragmentação em pequenos pedaços que foram cultivados em Agar de Sabouraud glicosado, adicionado de cloranfenicol e em Agar Mycobiotic, objetivando o cultivo para isolamento e identificação do agente etiológico. 

Resultados e Discussão 
Histopatologia - À histopatologia, foram observados numerosos focos de desenvolvimento fúngico, caracterizando a formação de microcolônias constituídas unicamente por estruturas vegetativas filamentosas (hifas) septadas, de diâmetro irregular, cortadas no sentido longitudinal ou transversal e reativas positivamente ao PAS (Fig. 1).
Fig. 1. Histopatologia de pseudomicetoma dermatofítico evidenciando microcolônias reativas ao PAS, constituídas de hifas septadas de diâmetros irregulares, segmentadas em diversos sentidos.


Observou-se infiltração inflamatória constituída principalmente por células mononucleares e macrófagos, além de discreta presença de eosinófilos e plamócitos. Os pseudomicetomas dermatofíticos podem ser distinguidos de micetomas fúngicos ou micetomas eumicóticos por apresentarem lesões multifocais e pela associação etiológica com dermatófitos.
Micologia – Através dos cultivos em Agar Mycobiotic e em Agar de Sabouraud com cloranfenicol, foram isolados Microsporum canis do gato (Fig. 2) e Microsporum distortum do cão (Fig. 3). 
   
                      Fig. 2 – Colônia e macroconídeo de Microsporum canis

    
               Fig. 3 – Colônias e macroconídeos de Microsporum distortum

Os principais agentes etiológicos das dermatofitoses em cães são Microsporum canis, M. gypseum e Trichophyton mentagrophytes e em gatos, o M. canis. A contrário, o Microsporum distortum poucas vezes tem sido correlacionado com dermatites micóticas em animais domésticos (Chatterje et al, 1980; Kaplan, et al, 1957; Kaplan, et al, 1957a). Microsporum distortum é uma designação taxonômica controversa, recebendo de alguns, o status de espécie e sendo considerado por outros, tão somente, como uma variante da espécie Microsporum canis e sendo denominada, neste caso, como M. canis var. distortum. Quando se analisa de forma comparativa estas duas entidades taxonômicas, encontramos divergência apenas no formato dos macroconídeos que, em M. distortum não segue um padrão uniforme, ocorrendo uma grande variedade de formas em uma mesma cultura (Fig. 3), ao contrário do M. canis, cujos macroconídeos apresentam um 
único formato, bem uniforme e caraterístico (Fig. 2). Em nossa opinião, pequenas diferenças morfológicas não deveriam justificar subdivisões de espécies e o sistema taxonômico deveria ser simplificado ao máximo possível, com redução, dentro de limites justificáveis do número de gêneros e espécies atualmente reconhecidas.
O que provocaria a migração de um fungo queratinofílico da superfície da pele que é rica em queratina, seu nutriente natural e abundante, para tecidos mais profundos aonde não existe disponibilidade desta forma de nutriente, que é a razão principal para eles se colonizarem na superfície da pele? Provavelmente não deve existir uma explicação suficientemente lógica e convincente que justifique este desvio patológico/nutricional, mas o desenvolvimento errático de um dermatófito em tecidos não queratinizados, resultando em pseudomicetomas, pode ter várias explicações:
a) Teoria defendida por Ajello et al. (1980) e Chen et al. (1993), considera que, ao se desenvolver de forma centrífuga na pele, o dermatófito encontrará o folículo piloso e, ao invadi-lo, poderá encontrar uma área de fragilidade em seu epitélio de revestimento, penetrando nos tecidos adjacentes. A presença de hifas no tecido subcutâneo provocará uma reação inflamatória que resultará na formação de um granuloma. ;
b) De acordo com Caretta et al. (1989), parasitas como as pulgas e carrapatos, que podem carrear o fungo na superfície de seu corpo, ao picarem a pele do animal, inoculariam o dermatófito em áreas teciduais abaixo do extrato córneo. Fora de um contato direto com 
    a queratina, o fungo passaria a se desenvolver de forma aleatória, podendo atingir os tecidos mais profundos;
c) Ácidos graxos produzidos pelas glândulas sebáceas, que exercem um importante papel na proteção da pele contra a invasão por microorganismos do ambiente externo, podem ter suas propriedades fungicidas ou fungistáticas alteradas por microorganismos lipofílicos. Nestas condições, os dermatófitos ficam livres para penetrarem nos tecidos subcutâneos (Moriello & DeBoer, 1991);
d) Lesões traumáticas cutâneas (Tuttle & Chandler, 1983) ou imunossupressão medicamentosa ou infecciosa (Yager et al., 1986), poderiam facilitar a penetração do dermatófito nos tecidos subcutâneos.


Referências
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Ajello, A., Kaplan, W. & Chandler, F. W. Dermatophyte mycetoma: fact or fiction? Proceedings of 5th International Conference on Mycoses Pan Am. Health Org. Sci. Pub., 396: 135-140, 1980.
Bergman, R. L., Medleau, L., Hnilica, K., Howerth, E. Dermatophyte granulomas caused by Trichophyton mentagrophytes in a dog. Vet. Dermatol., 13(1):49-52, 2002.
Black, S. S, Abernethy, T. E, Tyler, J. W., Thomas, M. W., Garma-Avina, A., Jensen, H. E.. Intra-abdominal dermatophytic pseudomycetoma in a Persian cat. J. Vet. Intern. Med., 15(3): 245-248, 2001.
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Caretta, G., Mancianti, F. & Ajello, L. Dermatophytes and keratinophilic fungi in cats and dogs. Mycoses, 32 (8): 620-626, 1989.
Chatterje, A. et al. Isolation of Microsporum distortum from ringworm lesions in a dog. Indian J. Anim. Health, 19: 159, 1980.
Chen, A. W. J., Kuo, J. W., Chen, J. S., Sun, C. C., Huang, S. F. Dermatophyte pseudomycetoma: a case report. Br. J. Dermatol., 129 (6): 729-732, 1993.
Kaplan, W., Georg, L. K., Hendricks, S. L. & Leeper, R. A. Isolation of Microsporum distortum from animals in the United States. J. Invest. Derm., 28: 449-453, 1957.
Kaplan, W., Hopping, J. L.,Jr., & Georg, L. K. Ringworm in horses caused by the dermatophyte Microsporum distortum.  J. A. V. M. A., 131: 329-332, 1957a.
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Moriello, K. A. & De Boer, D. J. Fungal flora of the haircoat of cats with and without dermatophytosis. J. Vet. Med. Mycol., 29 (5): 285-292, 1991.
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Tuttle, P. A. & Chandler, F. W. Deep dermatophytosis in a cat. J. A. V. M. A., 183 (10): 1106-1108, 1983.
Yager, J.A, Wilcock, B. P, Lynch, J. A., Thompson, A.R. Mycetoma-like granuloma in a cat caused by Microsporum canis. J. Comp. Pathol., 96(2):171-176, 1986.
Zimmerman, K., Feldman, B., Robertson, J., Herring, E. S., Manning, T. Dermal mass aspirate from a Persian cat. Vet. Clin. Pathol., 32(4):213-7, 2003.