Micologia. 1
PSEUDOMICETOMA DERMATOFÍTICO
Isolamento de Microsporum distortum e Microsporum canis de pseudomicetomas dermatofíticos em cão e gato.
Luiz Celso Hygino da Cruz1
José Luis de Carvalho2
Diana Cunha da Cruz de Carvalho3
Alexandre Cunha Espindola3
___________________________
1. PhD; Prof. Titular aposentado UFRRJ; Prof. Adjunto Univ. Estácio de Sá; LABOVET
2. MS; Prof. Auxiliar Univ. Estácio de Sá; LABOVET.
3. MS; LABOVET - Labovet – Rua Aricurí, 1196 – Campo Grande – Rio de Janeiro. Hyginodacruz@gmail.com
Resumo
Microsporum distortum e Microsporum canis foram isolados, respectivamente, de um cão e de um gato que apresentavam lesões nodulares subcutâneas. Histologicamente, estes nódulos foram caracterizadas como pseudomicetoma dermatofítico por apresentarem lesões multifocais de desenvolvimento fúngico, caracterizando a formação de microcolônias constituídas unicamente por hifas septadas, de diâmetro irregular, cortadas no sentido longitudinal ou transversal e reativas positivamente ao PAS e pela associação etiológica com dermatófitos. Não foi encontrada nenhuma referência na literatura consultada sobre a associação desta patologia com o Microsporum distortum e discute-se também a validade desta espécie.
Abstract
Microsporum distortum and Microsporum canis were isotaded, respectivelly, from a dog and a cat, with subcutaneous nodules. Histologically, this nodules were a typical pseudomycetoma dermatophytic by its multiphocal fungical lesions charactherized by microcolonies formations, constituted only by septated hiphal with irregular diameter, longitudinal and transversally segmented and were reatives to PAS. No reference about M. distortum associated with a pseudomycetoma dermatophytic were observed and a discussion about that specie is .
Introdução
Os dermatófitos constituem um grupo de fungos capazes de utilizarem a queratina como nutrientes e, por isto, são encontrados parasitando os tecidos queratinizados do homem e dos animais (extrato córneo da pele, pelo, e unhas). Algumas espécies vivem saprofiticamente no solo, nutrindo-se da queratina ali existente e, eventualmente, podem infectar os animais. A queratina é uma escleroproteína altamente polimerizada, constituída de cadeias polipeptídicas unidas por ligações S-S as quais mantêm a forma tridimensional da molécula. A maior resistência de certas estruturas queratinizadas, os anexos da pele como os cascos, chifres e as carapaças de tartarugas, tem sido atribuída à presença de um maior número dessas ligações em suas moléculas de queratina, o que também pode explicar
a maior resistência que elas demonstram ter à ação de fungos queratinolíticos, os dermatófitos. A alta resistência das queratinas à maioria dos microrganismos está correlacionada com a presença dessas ligações. Os dermatófitos, ao produzirem queratinases, que são capazes de romperem as ligações S-S, decompõem a queratina, resultando em compostos que possuem o grupamento -SH. Esta capacidade de produzir
queratinases explica o fato dos dermatófitos infectarem somente os tecidos superficiais ricos em queratinas, não tendo poder invasor. Ao contato com a pele, o dermatófito fixa-se no extrato córneo e inicia o seu crescimento que evoluirá de maneira centrífuga. A partir do
ponto de infecção inicial, o fungo crescerá em todos os sentidos, buscando novas fontes de queratina. Como ele não tem poder invasor, seu crescimento normalmente, fica limitado às áreas queratinizadas da pele. A reação inflamatória que se segue às infecções por dermatófitos podem ser explicadas por uma produção de metabólitos tóxicos pelo fungo. Estas substâncias produzem uma irritação na pele, sobrevindo, conseqüentemente, uma reação defensiva do organismo animal. Quando isto ocorre, o fungo se afasta da região inflamada, pois ele não é capaz de sobreviver em um ambiente com inflamação e infecção bacteriana secundária. Por causa disto, provavelmente como uma forma de garantir a sua sobrevivência, através de um longo processo evolutivo, alguns dermatófitos suprimiram sua capacidade de produzir substâncias irritantes para determinados hospedeiros garantindo, desta maneira, sua permanência junto a uma determinada espécie animal. Não sendo produzidas substâncias irritantes, não haverá reação inflamatória e, em conseqüência, o fungo permanecerá indefinidamente na pele desta espécie animal. Isto aconteceu com o Microsporum canis com relação ao cão e, quando esta espécie parasita outros animais ocorre, em geral, o desenvolvimento de uma reação inflamatória mais pronunciada. Esta adaptação pode estar relacionada com as diferenças entre a constituição química das diversas queratinas que, de acordo com a espécie animal, pode ter variação no conteúdo de cistina, ácido nicotínico, triptofano, arginina etc.
Nos felinos, a infecção localiza-se preferencialmente nas extremidades e na cabeça. Em geral é inaparente, sem reação inflamatória e apresentando somente uma suave descamação com áreas depiladas ou com pelos que se desprendem com facilidade. Nas formas com ligeira resposta inflamatória ocorre formação de crostas.
Nos caninos, as lesões, em geral, são mais marcantes, mas variam de acordo com o estado imunológico do animal ou de acordo com o gráu de patogenicidade da cepa fúngica. As lesões podem ser discretas, apresentando apenas queda de pelos e descamação ou podem ser acompanhadas de uma resposta inflamatória um pouco mais intensa, tendo os bordos ligeiramente mais elevados e hiperemiados. Em casos extremos, quando o animal encontra-se imunossuprimido, a reação inflamatória pode ser grave podendo, inclusive, ocorrer complicações por infecções bacterianas secundárias.
Pseudomicetoma dermatofítico - Raramente, os dermatófitos produzem lesões em tecidos profundos não queratinizados, que são denominadas de pseudomicetomas dermatofíticos. A presença de um dermatófito em tecidos subcutâneos provoca uma reação purulenta aguda com formação de abcessos ou produzindo uma reação granulomatosa, usualmente do tipo nodular. São poucas as referências na literatura especializada sobre a ocorrência desta patologia (Abramo, Vercelli & Macianti, 2001; Bergman et al., 2002; Black et al., 2001; Bond, Pocknell, Tozet, 2001; Chen et al., 1993; Miller Jr. & Goldschmidt, 1986; Moraes et al., 2001; Tuttle & Chandler, 1983; Yager et al., 1986; Zimmerman et al., 2003; Giufrida & Tostes, 2003).
Material e Métodos
Fragmentos de lesões nodulares retiradas cirurgicamente da região subcutânea de um cão e de um gato, foram encaminhados ao Laboratório de Microbiologia do LABOVET, por duas clínicas veterinárias localizadas na cidade do Rio de Janeiro para diagnóstico micológico. Cada um destes dois materiais foi dividido em duas partes: uma delas foi colocada em formol a 10% para fixação e posterior histopatologia, utilizando a coloração de PAS e a outra parte foi imediatamente processada, com sua fragmentação em pequenos pedaços que foram cultivados em Agar de Sabouraud glicosado, adicionado de cloranfenicol e em Agar Mycobiotic, objetivando o cultivo para isolamento e identificação do agente etiológico.
Resultados e Discussão
Histopatologia - À histopatologia, foram observados numerosos focos de desenvolvimento fúngico, caracterizando a formação de microcolônias constituídas unicamente por estruturas vegetativas filamentosas (hifas) septadas, de diâmetro irregular, cortadas no sentido longitudinal ou transversal e reativas positivamente ao PAS (Fig. 1).
Fig. 1. Histopatologia de pseudomicetoma dermatofítico evidenciando microcolônias
reativas ao PAS, constituídas de hifas septadas de diâmetros irregulares, segmentadas em
diversos sentidos.
Observou-se infiltração inflamatória constituída principalmente por células mononucleares e macrófagos, além de discreta presença de eosinófilos e plamócitos. Os pseudomicetomas dermatofíticos podem ser distinguidos de micetomas fúngicos ou micetomas eumicóticos por apresentarem lesões multifocais e pela associação etiológica com dermatófitos.
Micologia – Através dos cultivos em Agar Mycobiotic e em Agar de Sabouraud com cloranfenicol, foram isolados Microsporum canis do gato (Fig. 2) e Microsporum distortum do cão (Fig. 3).
Fig. 2 – Colônia e macroconídeo de Microsporum canis
Fig. 3 – Colônias e macroconídeos de Microsporum distortum
Os principais agentes etiológicos das dermatofitoses em cães são Microsporum canis, M. gypseum e Trichophyton mentagrophytes e em gatos, o M. canis. A contrário, o Microsporum distortum poucas vezes tem sido correlacionado com dermatites micóticas em animais domésticos (Chatterje et al, 1980; Kaplan, et al, 1957; Kaplan, et al, 1957a). Microsporum distortum é uma designação taxonômica controversa, recebendo de alguns, o status de espécie e sendo considerado por outros, tão somente, como uma variante da espécie Microsporum canis e sendo denominada, neste caso, como M. canis var. distortum. Quando se analisa de forma comparativa estas duas entidades taxonômicas, encontramos divergência apenas no formato dos macroconídeos que, em M. distortum não segue um padrão uniforme, ocorrendo uma grande variedade de formas em uma mesma cultura (Fig. 3), ao contrário do M. canis, cujos macroconídeos apresentam um
único formato, bem uniforme e caraterístico (Fig. 2). Em nossa opinião, pequenas diferenças morfológicas não deveriam justificar subdivisões de espécies e o sistema taxonômico deveria ser simplificado ao máximo possível, com redução, dentro de limites justificáveis do número de gêneros e espécies atualmente reconhecidas.
O que provocaria a migração de um fungo queratinofílico da superfície da pele que é rica em queratina, seu nutriente natural e abundante, para tecidos mais profundos aonde não existe disponibilidade desta forma de nutriente, que é a razão principal para eles se colonizarem na superfície da pele? Provavelmente não deve existir uma explicação suficientemente lógica e convincente que justifique este desvio patológico/nutricional, mas o desenvolvimento errático de um dermatófito em tecidos não queratinizados, resultando em pseudomicetomas, pode ter várias explicações:
a) Teoria defendida por Ajello et al. (1980) e Chen et al. (1993), considera que, ao se desenvolver de forma centrífuga na pele, o dermatófito encontrará o folículo piloso e, ao invadi-lo, poderá encontrar uma área de fragilidade em seu epitélio de revestimento, penetrando nos tecidos adjacentes. A presença de hifas no tecido subcutâneo provocará uma reação inflamatória que resultará na formação de um granuloma. ;
b) De acordo com Caretta et al. (1989), parasitas como as pulgas e carrapatos, que podem carrear o fungo na superfície de seu corpo, ao picarem a pele do animal, inoculariam o dermatófito em áreas teciduais abaixo do extrato córneo. Fora de um contato direto com
a queratina, o fungo passaria a se desenvolver de forma aleatória, podendo atingir os tecidos mais profundos;
c) Ácidos graxos produzidos pelas glândulas sebáceas, que exercem um importante papel na proteção da pele contra a invasão por microorganismos do ambiente externo, podem ter suas propriedades fungicidas ou fungistáticas alteradas por microorganismos lipofílicos. Nestas condições, os dermatófitos ficam livres para penetrarem nos tecidos subcutâneos (Moriello & DeBoer, 1991);
d) Lesões traumáticas cutâneas (Tuttle & Chandler, 1983) ou imunossupressão medicamentosa ou infecciosa (Yager et al., 1986), poderiam facilitar a penetração do dermatófito nos tecidos subcutâneos.
Referências
Abramo, F., Vercelli, A. & Macianti, F. Two cases of dermatophytic pseudomycetoma in the dog: an immunohistochemical study. Vet. Dermatol., 12 (4): 203-207, 2001.
Ajello, A., Kaplan, W. & Chandler, F. W. Dermatophyte mycetoma: fact or fiction? Proceedings of 5th International Conference on Mycoses Pan Am. Health Org. Sci. Pub., 396: 135-140, 1980.
Bergman, R. L., Medleau, L., Hnilica, K., Howerth, E. Dermatophyte granulomas caused by Trichophyton mentagrophytes in a dog. Vet. Dermatol., 13(1):49-52, 2002.
Black, S. S, Abernethy, T. E, Tyler, J. W., Thomas, M. W., Garma-Avina, A., Jensen, H. E.. Intra-abdominal dermatophytic pseudomycetoma in a Persian cat. J. Vet. Intern. Med., 15(3): 245-248, 2001.
Bond, R., Pocknell, A. M., Tozet, C. E. Pseudomycetoma caused by Microsporum canis in a Persian cat: lack of response to oral terbinafine. J. Small Anim. Pract., 42(11):557-60, 2001.
Caretta, G., Mancianti, F. & Ajello, L. Dermatophytes and keratinophilic fungi in cats and dogs. Mycoses, 32 (8): 620-626, 1989.
Chatterje, A. et al. Isolation of Microsporum distortum from ringworm lesions in a dog. Indian J. Anim. Health, 19: 159, 1980.
Chen, A. W. J., Kuo, J. W., Chen, J. S., Sun, C. C., Huang, S. F. Dermatophyte pseudomycetoma: a case report. Br. J. Dermatol., 129 (6): 729-732, 1993.
Kaplan, W., Georg, L. K., Hendricks, S. L. & Leeper, R. A. Isolation of Microsporum distortum from animals in the United States. J. Invest. Derm., 28: 449-453, 1957.
Kaplan, W., Hopping, J. L.,Jr., & Georg, L. K. Ringworm in horses caused by the dermatophyte Microsporum distortum. J. A. V. M. A., 131: 329-332, 1957a.
Miller, W. H., Jr., Goldschmidt, M. H. Mycetoma in a cat by a dermatophyte: a case report. J. Am. Anim. Hosp. Assoc., 22 (3/4): 255-260, 1986.
Moraes, M.A.P. et al. Pseudomicetoma dermatofítico: relato de um caso devido a Trichophyton tonsurans. Rev. Soc. Bras. Med. Trop., 34 (3): 291-294, 2001.
Moriello, K. A. & De Boer, D. J. Fungal flora of the haircoat of cats with and without dermatophytosis. J. Vet. Med. Mycol., 29 (5): 285-292, 1991.
Tostes, R. A. & Giufrida, R. Pseudomicetoma dermatofítico em felinos. Ciência Rural, Santa Maria, 33 (2): 363-365, 2003.
Tuttle, P. A. & Chandler, F. W. Deep dermatophytosis in a cat. J. A. V. M. A., 183 (10): 1106-1108, 1983.
Yager, J.A, Wilcock, B. P, Lynch, J. A., Thompson, A.R. Mycetoma-like granuloma in a cat caused by Microsporum canis. J. Comp. Pathol., 96(2):171-176, 1986.
Zimmerman, K., Feldman, B., Robertson, J., Herring, E. S., Manning, T. Dermal mass aspirate from a Persian cat. Vet. Clin. Pathol., 32(4):213-7, 2003.


Nenhum comentário:
Postar um comentário