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Médico Veterinário (UFRRJ-1964). MS em Microbiologia (UFRRJ, 1971) e PhD em Sanidade Animal (UFRRJ, 1997). Produziu cerca de 150 trabalhos científicos: os primeiros relatos sobre Cryptococose felina; primeiros isolamentos do Pithyum insidiosum de equinos; Nefropatia micotóxica suína, Aflatoxicose em suínos; anticorpos monoclonais anti aflatoxina e citrinina e estudos experimentais sobre citrinina em suínos. Prêmio de Pesquisa Avícola “Prof. José Maria Lamas da Silva” “Comenda do Mérito Veterinário” Instituto de Veterinária da UFRRJ; Honra ao Mérito Veterinário CRMV-RJ e Professor Emérito da UFRRJ. Presidente da Sociedade Latinoamericana de Micotoxicologia, Presidiu o I Congresso Latinoamericano de Micotoxicologia, RJ. Implantou o Centro de Micologia e Micotoxicologia e o Curso de Mestrado em Microbiologia Veterinária da UFRRJ. Autor dos livros: “Micotoxicologia: perspectiva Latino-americana” e “Micologia Veterinária” Na UFRRJ foi Professor Titular de Micologia e Micotoxicologia. Atualmente é Professor Titular da Universidade Estácio de Sá, responsável pela disciplina de Micologia Veterinária.

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segunda-feira, 5 de março de 2012


MICOTOXINAS-1


Fontes de proteínas destinadas à alimentação do homem e dos animais devem estar livres de contaminantes químicos naturais ou sintéticos capazes de provocarem efeitos adversos à saúde. Algumas destas substâncias chegam aos alimentos através do próprio homem que as utilizam no combate ás diversas pragas, comuns nas lavouras. Outro importante grupo de contaminantes são os toxicantes não intencionais, assim denominados porque são produzidos naturalmente por micoorganismos, plantas e animais. Neste grupo enquadram-se um conjunto de metabólitos secundários tóxicos produzidos por fungos, as micotoxinas. Estas substâncias estão sendo consideradas pela Organização Mundial de Saúde como poluentes ambientais de importância mundial. Elas compreendem um conjunto complexo de moléculas tóxicas, produzidas por fungos, diferenciando-se das toxinas bacterianas por não serem de natureza protéica e nem imunogênicas. Embora aproximadamente quinhentas sejam atualmente conhecidas, somente algumas delas têm sido amplamente estudadas.
Em populações humanas onde predominam a fome e a pobreza, o consumo de alimentos contaminados com micotoxinas é muitas vezes, ignorado. Atualmente, estima-se que um em cada cinco habitantes da terra (aproximadamente um bilhão de pessoas) viva em condições de extrema pobreza. A cada oito segundos morre uma criança por doenças associadas à miséria (principalmente parasitoses) e à subnutrição (uma em cada três crianças do mundo). Nos países em desenvolvimento, a pobreza é a principal responsável pela falta de condições mínimas de higiene (água potável, medicamentos e instalações sanitárias).  Estes fatores, sem dúvida, contribuem para o aumento da mortalidade e tornam o estudo das micotoxicoses um tema complexo e desafiador. 
A presença de micotoxinas em grãos, além de refletir negativamente sobre a exportação, causa importantes prejuízos à pecuária, especialmente à suinocultura e avicultura. Enormes perdas econômicas são decorrentes da utilização de alimentos contaminados por estas substâncias tóxicas. Quando não provocam a morte dos animais em processos de intoxicação aguda, as micotoxinas determinam redução de peso, diminuição da postura e da conversão alimentar, aumento da suscetibilidade às doenças infecciosas e parasitárias, além de causarem problemas reprodutivos. 
Estes problemas são mais acentuados nos países de clima tropical úmido, os quais reúnem as condições ambientais adequadas ao desenvolvimento dos fungos. A ocorrência de micotoxicoses entre os animais domésticos pode ser  um reflexo do sistema produtivo adotado pelos criadores.  Quanto mais ele torna evoluído, maior é a utilização de alimentação concentrada à base de grãos, tornando maior a probabilidade de intoxicação pelas micotoxinas. De maneira geral, os cereais produzidos em regiões quentes e úmidas, com predominância de técnicas agrícolas deficientes e armazenamento inadequado e insuficiente, são mais sujeitos à proliferação de fungos e a consequente produção de micotoxinas.
Numerosas espécies fúngicas são hoje, reconhecidas como produtoras de uma ou mais micotoxinas e um grande número destes metabólitos tóxicos já foram identificados e caracterizados como substâncias produzidas em contaminações naturais de grãos e outros alimentos. 
Caracterizar a micobiota toxígena presente na superfície dos grãos pode ter seu valor epidemiológico e ser importante para a adoção de medidas preventivas, entretanto, conclusões definitivas sobre a etiologia da intoxicação somente podem ser deduzidas após a extração e identificação da micotoxina envolvida porque é necessário considerar que:
1. a simples presença de um fungo toxígeno não assegura que uma micotoxina esteja presente;
2. a ausência de fungos toxígenos não garante um produto isento de contaminação por micotoxinas, porque a micotoxina pode persistir mesmo que o fungo já tenha sido eliminado;
3. muitas vezes os fungos produzem mais de uma micotoxina;
4. uma determinada micotoxina pode ser produzida por mais de um gênero de fungos.

As micotoxinas entram na dieta dos animais através da utilização de rações elaboradas com grãos já contaminados por toxinas ou de rações estocadas sob condições inadequadas. De maneira geral, os grãos possuem elementos fúngicos (conídios) em sua superfície, os quais permanecerão em estado de latência se as condições ambientais (temperatura, umidade relativa e atividade de água) permanecerem impróprias ao seu desenvolvimento. 
Sob condições favoráveis de temperatura e umidade, os conídios dos fungos germinam, formam hifas e, ao desenvolverem seu micélio sobre a superfície dos grãos,
 a) reduzem o seu valor nutritivo porque utilizam parte dos nutrientes para o seu próprio crescimento; 
b) aumenta os riscos de ocorrência de infecções pulmonares causadas por espécies patogênicas, como é o caso do Aspergillus fumigatus; 
c) se o fungo for toxígeno, diversas micotoxinas podem surgir como contaminantes, provocando graves problemas de intoxicação aguda ou crônica. 
Diversos gêneros de fungos contaminantes comuns de nossos produtos agrícolas são produtores de micotoxinas importantes em patologia animal. Dentre eles destacam-se os gêneros Aspergillus, Penicillium, Fusarium, Alternaria, Claviceps, Stachibotrys, Phoma, Mirothecium e Pithomyces, com várias espécies toxígenas capazes de crescerem em diversos substratos e sob condições as mais variadas (pH, umidade, temperatura, aeração, etc.). Os fungos podem contaminar os alimentos em qualquer momento da produção, transporte, estocagem ou industrialização, havendo necessidade de uma interação entre o fungo, o substrato e as condições ambientais.  Desta maneira, as micotoxinas podem ser produzidas quando o produto ainda se encontra no campo, antes mesmo de sua colheita e, até mesmo antes de sua formação, quando o fungo pode penetrar através da flor. Conceitos até então considerados clássicos foram revistos à luz de novas observações. Por exemplo, as aflatoxinas consideradas um produto do metabolismo secundário de Aspergillus elaborado somente em produtos agrícolas estocados, pode ser também produzido antes da colheita dos grãos, porque o fungo pode atingi-los, penetrando através da flor. Inegavelmente, entretanto, a contaminação ocorre com mais frequência no período pós-colheita,
1) quando a secagem dos grãos é retardada ou não é feita adequadamente;
2) durante o seu transporte sob condições inadequadas, em caminhões ou trens que, ao permanecerem expostos ao sol têm a carga aquecida, provocando a formação de correntes de convexão e o consequente deslocamento de vapores  d'água das áreas mais quentes da carga para as regiões mais frias. Nestes locais, ocorre a condensação dos vapores de água com aumento da umidade local, criando as condições para o desenvolvimento de fungos e a produção de micotoxinas. A solução para este problema é a adoção de um sistema de aeração adaptável à carroceria do caminhão ou trem;
3) durante a armazenagem do produto agrícola que necessita ser feito com sistemas eficientes de aeração, controle de temperatura e da contaminação por insetos;
4) no processamento industrial, quando o produto pode ser contaminado por sobras contaminadas de outros produtos anteriormente processados;
5) durante a estocagem na fazenda do produto industrializado (rações, por exemplo).

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